O Polo EaD de Nova Friburgo, por meio da coordenação do curso de Licenciatura em Letras, está organizando o V Concurso de Poesias Polo Poético.
Dos poemas enviados, 9 foram selecionados para participarem da grande final do dia 29 de setembro, na V Jornada de Letras, quando serão definidos os vencedores dos prêmios.
Os textos para a votação estão dispostos a seguir. A votação deve ser feita na enquete ao final da página até às 23h55min do dia 28 de setembro
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A metafísica da fala
Pseudônimo: homem ficcional
Ouça o ruído:
É o universo que se articula
Na caixa acústica
Da boca.
Boca a boca
A linguagem fazendo
E desfazendo
A metafísica da língua
Que fala.
E que diz-que-me diz
Ou o que pode essa língua
Que fala
Que fala
Que fala sucessivamente…?
A que digo: basta!
Já estou farto
De tanta falácia.
A palavra
Já por demais
Anda gasta
E se arrasta
precária
Pelas ruas da cidade
Decrépita
Na linguagem farta.
Lá vai ela, a palavra,
Sendo cuspida e descartada
Pela boca desesperada.
Basta!
Chega de tanta palhaçada
De tanta palafita
De tanta palavra aflita
Que a palavra
É coisa séria
Na voz da poesia.
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Nesta língua pode?
Pseudônimo: Soneto
Sim, pode,
Não desacredite!
Pode cantar,
Pintar e bordar.
Como Guimarães Rosa,
Inventar palavras,
Escrever poemas em prosa,
Pelo sertão enveredar.
Carregar água na peneira,
Tirar pedra do caminho,
Matar saudade da Amélia.
Ainda há dúvida se pode?
Estude poética!
É minha réplica.
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Esta língua
Pseudônimo: Fernando Peçonha
Esta língua carnuda e lasciva,
feitora de maravilhas aos borbotões
na alcova de portentosas labaredas,
língua que te faz suar em cachoeiras,
sussurrar e urrar alternadamente
e que te leva a contorceres o corpo
com as mechas negras do meu conforto
feito uma saracoteante anaconda da lubricidade
(como ela mesma o é!)
é capaz de nos levar ao paraíso…
Mas esta língua tão generosa
é também uma língua ferina
que chicoteia a alma alheia
com espinhos peçonhentos e multifarpados,
levando palavras pecaminosas
que jamais retrocedem
que jamais se deixam olvidar
na mesma alma alheia agora marcada
com o ferro em brasa da frieza,
um paradoxo compreensível
a todos os já atingidos
pelas balas perdidas linguísticas!
Palavras que entram arrombando os tímpanos alheios!
Aríetes da perversidade e mesmo da blasfêmia!
Instrumentos contundentes e cínicos
que inspiraram Sade e Maquiavel,
que puseram um cão pulguento inteiro
atrás das orelhas de John Locke!
Esta língua encharcada de saliva
como qualquer outra língua pulsante,
esponjosa, latejante, vívida
escarra outra língua aos zéfiros:
uma língua portuguesa com certeza?
Uma língua brasileira e tão braseira!
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Minha Língua Latina
Pseudônimo: Vere Flos
É latina sim
Com muito orgulho
Com muito amor
É língua que fala de mim.
Beleza latina
Leveza latina
Intensidade latina
Liberdade latina
Palavras!
Palavras que vem da Flor
A última Flor do Lácio
Português, amor.
Língua que tem e não tem
Língua em que cabe e não cabe
Língua que pode muito mais do que você imagina
Língua que pode muito menos do que você gostaria.
É Português sim
Com muito orgulho
Com muito amor
É Língua que fala e não fala de mim.
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Lacunas II
Pseudônimo: Gregório Sonso
Clara mente
Pele alva
Longos pelos
Frio sentes
Belos zelos
Foguear
Aguda mentes
Chamas ar
Tu vinhas
In vino veritas
Lá te procurei
Em Paraty
Em ti
Parei
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Gosto do poder da língua
Pseudônimo: Sorriso
Gosto do poder da língua
Gosto dessa língua que destrava pensamentos,
que move conceitos,
que desperta mudanças!
Gosto da língua universal
Gosto dessa língua
que absolve o bem,
que deleta o mal!
Gosto do medo de alguns…
de que a língua vire força
na boca dos antes calados…
Gosto de acreditar que a língua
possa operar mudanças
possa fazer tempestades
virarem bonanças!
Gosto do gosto da língua
sendo só língua de prazer!
Prazer em ser, em sentir,
em querer, em satisfazer!
Minha,
tua,
nossa
língua!
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O que pode essa língua?
Pseudônimo: Lua em peixes
Essa língua tem muitas “ites”
E precisa de muitos “istas”
Para ósteo, neuro, arterial…
A dor física é a concretude da subjetividade
Que a palavra não expressa.
Mas se é “coisa” autoimune,
A culpa toda é só sua!
Sua bússola desorientada não navega com precisão.
Vá então ouvir as estrelas,
Vá ler seu mapa astral!
Porque oração de Lua cheia não tem sujeito nem verbo.
Tem a língua da Mãe terra,
A língua dos Orixás!
Há tanta ancestralidade nessa língua,
Tanto Portugal, tanta África,
Tanto tambor, tanta dança,
Tanto índio nas placas dos nomes das ruas…
Essa língua é uma progressão geométrica,
Uma probabilidade infinita!
Não está presa na gramática
Nem nas bancas da academia.
Essa língua anda solta por aí, pelas praças,
No desafio de um Cordel reinventado
Nas rimas da quebrada,
A esgueirar-se pelos becos mais desbocados,
Pelos guetos, pelas veredas…
E se essa língua, para falar de menino
Tem – “adolescente” e “menor” –
Pode crer que a diferença está na pele, na cor.
Chamar extermínio de “Pacificação”
Não é ressignificar, é subverter a lógica!
Essa mesma língua que lambe o mel da minha libido,
Cospe do ódio o fel, que escorre nas pedras onde piso.
É um “currupaco-papaco”,
Um bate-estaca,
Uma roda-vida,
Um corre-corre…
Essa língua que tem hífen, e que não tem,
Tem regras, tem liberdade.
Abraça neologismos, dialetos, silêncios…
Tem unidade e idiossincrasias…
Essa língua tem o paradoxo da utopia
Sempre sempre além-mar
E em seu passado fantasioso de glória,
A de ser no mundo a única a ter a palavra Saudade.
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Mesmo diante de outros amores
Pseudônimo: Anjo Azul Marinho
Por mais belas que se apresentem
Ainda assim tu és para mim
A que me acompanha desde pequeno
Desde lá quando ainda era o latim
Maravilhosa e capaz todos os dias
Faz mais, sempre mais…
Até os de fora já são de casa
Chegando e ajuntando essa história
Fazendo mais uma vez por esta hora
Quantas alegrias queremos contar?
Sem nem poder pensar em te deixar
Seria covardia deixar-te sem ter essa alegria
Ao deitar e ao levantar sempre estará lá
De prontidão para nos ajudar a falar
Nossos orgulhos e nossas vergonhas
Nossos desejos e nossas paixões
Tudo passa por ti, tudo é parte de ti.
Fazemos o melhor que podemos
Para não deixar de te cumprir
Assim vamos te servir, agora e aqui
Vou ser para ti o que és para mim
Ser, querer, fazer, viver, nascer, morrer,
Bater, adormecer, acontecer, amanhecer,
Chover, entardecer, agradecer, escolher.
O que imaginamos e o que concretizamos
Somos assim o que falamos
Somos assim o que agimos
Somos assim o que aprendemos
Somos o amor, somos a vida, somos a língua!
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No início vivo e forte
Pseudônimo: Fontinhas
No início vivo e forte,
Mais um pouco, já tenho o fruto.
Em seguida tudo envelhece, seca e cai.
Passo por essas mudanças,
Sabendo que no final,
Tudo que caiu renascerá,
Mais belo, mais forte,
E pronto para quando a primavera chegar.